Instagram

se você que acha que a vida
é sobre as coisas coloridas
que você curte no Instagram
não. não. não. não é.
se você prefere sorvetes caros
e sem graça
aos normais
a vida é mais
a vida é dura
como uma piroca motivada por
comprimidos

a vida é como o céu
azul
engolindo qualquer nuvem pelo
caminho.

-Maurício Angélico

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talvez

talvez seja
amor
ou paixão?
talvez seja engano
do coração
talvez seja só saudade,
amizade
quem sabe?
mas talvez não seja nada
e talvez passe
rapidamente.
mas enquanto existir
enquanto afetar
os meus dias
eu vou cuidar
eu vou cultivar
porque eu sei
mesmo que não seja
pra sempre,
como quase nada
é,
vai durar
pelo tempo que for
e lutar contra isso
é lutar contra o tempo
e essa luta
eu já não posso mais perder.

-Maurício Angélico

alguns minutos

lembro que quando a conheci
não gostei tanto dela:
achei-a meio antipática
e nem tão bonita assim.
mas a vida fez questão
de nos dar alguns minutos
mais próximos
e aqueles minutos viravam
horas
e dias
e semanas e
depois meses.

e até hoje
aqueles minutos permanecem
magicamente parados
como num relógio velho
que com o tempo
se esqueceu de funcionar.

-Maurício Angélico

sobre os rios que corriam em você

solvo o uísque
lentamente
engulo a fumaça
misturada
com saudade.
meu peito aperta
com força
contra a mão
invisível
dela

tomei pra mim
as piores
escolhas
tentei fazer delas
um caminho
seguro
pra se chegar
onde
costumava
me perder

não deu em nada.
agora
o relógio marca
dezoito e trinta e sete
cedo demais
para se estar
bêbado
mas eu estou
e estou muito
mais

estou triste
—triste mesmo—
porque naqueles poucos segundos
que fechei meus
olhos
não reparei
nos rios que corriam
sobre você

e eu me afoguei
lentamente
como o uísque
vai afogando agora
—uma à uma—
cada mágoa trazida em meu leito.

-Maurício Angélico

extrema unção

eu estou próximo
da morte.
eu posso sentir
a vida se esvair
pelos poros
junto do suor
frio
e os pelos
ouriçados
do meu corpo.
eu já até posso me ver
esvaziando
lentamente
de toda vida
que pela sua
havia sido
preenchida.

-Maurício Angélico

ao seu lado

eu quero dormir
ao seu lado
todas
as noites
e acordar
dentro de ti
em cada amanhvecer
com o sol batendo
em minha costas
meu coração
batendo
no céu da boca.
eu quero estar contigo
até quando não houver
motivos
pra ficar
até bem tarde
eu vou insistir
eu vou me aborrecer
mas eu sei
que estarei melhor
quando for deitar
bem próximo da maré
que sobe pelo
por dentro de você
e acordar
com toda aquela
correnteza
pulsando forte
dentro
de
mim.

-Maurício Angélico

de manhã

procuro o sono
tateando com as mãos
acho seu corpo.
morno.
teus olhos vão se
abrindo
lentamente
desprendendo os cílios
ainda feitos
e você me chama
pra dormir um pouco mais
mal sabe que passei
a noite inteira acordado
mas deixo pra lá.
eu, que procurava dormir
pelo menos um pouco
perco o sono de vez

e enquanto o sol
se espreme pela persiana
recito safadezas
ao pé do seu ouvido.

-Maurício Angélico

dois corpos, única mente…

a chuva toca, sutilmente
a janela.
eu estou tão sozinho
que até posso ouvir
meu próprio desespero
e eu lembro
das vezes
em que fui
feliz
não foram tantas, eu sei
mas foram os
únicos
momentos
em que eu acreditei
no amanhã
pois foram também
os únicos momentos
em que nós fomos
únicos
um para o outro.

-Maurício Angélico

alodinia

queria descobrir uma
forma
de me afogar num chuveiro
durante o banho.
seria o suicício perfeito.
mais tranquilo, impossível:
meus pulmões se encheriam
de águas mornas

eu estaria contente
e
sereno
e nada mais precisaria fazer
sentido
eu já não precisaria mais existir
ou
coexistir
com nada que eu tenha
inventado

serei o criado da minha
própria
indiferença

em alguma parte de mim
eu encontraria algo
mesmo sem saber
e eu poderia até sentir…

e eu estaria vivo
novamente
(mesmo morto)
enquanto os últimos resquícios
de mim
fossem pelo ralo
junto com toda aquela água.

-Maurício Angélico

ela complicou um pouco as coisas quando disse que sentia saudades demais

eu estaria bem mais tranquilo
se chegasse bem tarde
àquele dia
e ela não mais estivesse mais
ali.

mas não.
eu estava ainda de cuecas
parado no corredor
como uma esfinge que acabara
de gastar todos os seus segredos
com
álcool
fumo
corridas de cavalo.
e ela tinha os dentes mais brancos
que a minha língua havia tocado
e tinha também a melhor bunda
e o cabelo mais bonito
e a solidão
mais bonita
de
todas
e era por dentro e por fora
o melhor reflexo
que os espelhos de teto
jamais conseguiram
reproduzir.

e ela disse:
“Vou ficar um pouco mais, você sabe,
senti tanto a sua falta”

—e nunca mais foi embora.

-Maurício Angélico